Depois de um título tão redundantemente ridículo como o que está acima, seria de esperar que a própria mensagem se iniciasse com uma frase que incluísse "séries". Não vos irei desapontar: já não vejo séries.
"Oh, infeliz hipocrisia!" - dirão uns, conscientes do erro superficial que esta declaração mal construída pode suscitar - "Mas quem é que o pobre sujeito pensa que está a enganar? Toda a gente vê séries neste mundo, sejam produções milionárias da HBO ou novelas para heptagenárias da SIC." Sim, não o nego: hoje em dia, com uma média de noventa televisões por habitante, é impossível não passar pelo menos uma semana sem deitar olho num artefacto televisivo que serve o papel já testado e usado (talvez também abusado) de filme partido aos bocadinhos. O que eu quero dizer é que já não me ponho em frente a um ecrã, por vontade própria, para passar horas e horas a viajar pelo mundo fictício de um CSI ou um Walking Déde.
"Oh, infeliz ignorância!" - dirão os gajos que acabaram de falar ainda há bocado, conscientes da perda de cultura que este comportamento poderá originar - "Como saberá ele quem morre no episódio nove da temporada dezasseis?" Não saberei, naturalmente, porque ainda não vi as quinze temporadas e oito episódios que precedem o dito cujo. A razão para tal perda de interesse reside na transformação que assolou o meu tempo livre após o almoço, no distante fim da escola secundária. Ante disso, quando ainda havia tempo para correr livremente pelos campos verdes dos jogos e programas de televisão, a rotina das minhas tardes livres consistia em saltar directamente para o mundo da FOX, logo a seguir ao almoço. Os imortais Simpsons, por muito criticados que tenham sido nas últimas séries, continuaram a oferecer-me algo de novo mesmo após a terceira ou quarta repetição dos episódios. Bones, por outro lado, pertencia ao mundo das três e meia, altura pela qual começava a sentir que deveria estar a fazer algo mais produtivo - a jogar computador, por exemplo!
Os últimos anos de escola não demoraram a chegar, porém, trazendo exames com eles. Com os exames, veio uma necessidade de estudar para a qual me tinha estado a preparar desde que nasci (não, isso é estúpido. Foi desde o nono ano). Sendo assim, o meu tempo de jogo passou a ser ocupado por revisões e exercícios ligeiramente mais aborrecidos, tendo a hora televisiva permanecido incólume. Até, naturalmente, ter decidido substituí-la pelos jogos do qual tinha sido privado.
Com os Simpsons a repetirem-se demasiadas vezes, mesmo para um sujeito que quase se pode considerar um fã do programa, decidi aplicar uma técnica diferente. As três e meia passaram a ser o meu limite de jogo, normalmente o previsivelmente viciante Call of Duty (sim, crucifiquem-me por isso. Olhem que eu tenho um bom gancho de esquerda). Com o estudo a ocupar o resto da tarde e algumas actividade psicologicamente mais produtivas após arrastar-me pelos livros, comecei lentamente a perder o rasto de grande parte das séries. Mesmo as que eu não seguia, das quais tinha uma vaga ideia do que se passava: essas, aliás, foram as primeiras a perder qualquer importância que ainda pudessem ter. Lentamente, também os meus favoritos foram desvanecendo na memória. A certa altura, já nem sabia se Fulano Tal era dono de uma empresa X ou se Fulana Tal ia casar com o primo do Fulano Tal depois de uma discussão entre os dois.
Muito tempo passou após ter perdido o interesse. Com a universidade, tive de começar a estudar ainda mais para coisas de que não gostava ainda mais, deixando pouco tempo livre para patuscadas e brincadeiras estúpidas. Longe da minha cidade natal, jogos pela rede com colegas também longínquos passaram a ser um entretenimento singular. Mas então e a televisão?
Ultimamente, têm aparecido toneladas de séries incríveis, recebidas de forma calorosa até pelos críticos mais ferozes. Para dar alguns exemplos óbvios, temos a famosa Breaking Bad, da qual todos os seus seguidores parecem falar como se fosse um livro sagrado, ou até o conhecido Game of Thrones, a adaptação do trabalho de George R. R. Martin. Confesso, e lá vem a hipocrisia outra vez, que já vi a primeira temporada deste último. Mas, e reforço a ideia do mas, é de notar que visionei tal coisa em férias, e juntamente com alguns colegas também admiradores de sangue, nudismo e cabeças a rolar.
Qual é a conclusão que se pode tirar daqui? Para vocês, nenhuma, menos o facto de estarem a ler um texto de um sujeito que parece ter mais sessenta anos do que aparenta. Eu, porém, e juro-vos que (ainda) não estou senil, concluo que o que matou as séries para mim foi tanto a falta de tempo para as ver como o desinteresse face a oportunidades mais apelativas. Porquê? Porque dar tiros nos meus amigos é muito melhor do que ficar horas a fio em frente a um ecrã. Quase que posso aplicar a mesma filosofia a filmes: se vou ver alguma coisa inteira, tem de ser com alguém por perto.
As séries, embora porreiras, passaram a ser uma coisa para se ver em grupo. Sim, o diálogo estraga um bocado o ambiente para o qual os programas nos são capazes de catapultar. Mas, para mim, estar a ver um filme partido aos bocados sozinho dá a mesma sensação que ir ver um filme inteiro a uma sala de cinema: não tem lá muita piada.
O que não tem piada, mesmo, é o que fizeram ao Ned Stark.
Oops.
Walking Déde? A ver vamos... :P
ResponderEliminarAs palavras aportuguesadas têm sempre um charme diferente! XD
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