Ah, as estradas portuguesas. Um local único do nosso país, muitas vezes esburacado, onde todos os seus habitantes esquecem os seus "brandos costumes" e assumem temporariamente o papel de velociraptors escapados da velha ilha do Jurassic Park. Tão calmo e tão civilizado que, se alguém se aproximar demasiado do alcatrão, mais rápido fica sem os tímpanos do que sem as pernas.
É um facto incontestável: nesta praia à beira-mar plantada, a condução transforma pessoas mentalmente saudáveis em demónios raivosos que fariam a bexiga de Lúcifer esvaziar-se um bocadinho. Não temam, porém, porque não tenciono discursar sobre todos os terrores que enfrentamos no dia-a-dia das vias rodoviárias. O assunto, que é bastante mais simples, parece de uma complexidade inexplicável para muitos.
E é o seguinte: falta no conhecimento de muitos portugueses um artigo externo ao código da estrada, relativo a passadeiras. Tudo bem, o livrinho do IMTT tem todas as regras que definem as prioridades numa passagem de peões, mas as leis não se traduzem instantaneamente num comportamento colectivo. Na minha opinião, mais vale esquecer o que está escrito no código e reformular a maneira como as pessoas encaram as riscas brancas que existem na estrada. Apresento, de seguida, as várias alíneas de um protótipo para o projecto mais revolucionário de toda a história de Portugal:
1) Peões: um carro significa perigo. Acima de tudo, uma pessoa a andar a pé não é uma traça, pelo que não deve aproximar-se do brilho dos faróis de um camião a oitenta quilómetros por hora. É capaz de fazer mal.
2) Para além disso, tentem estar minimamente atentos ao resto das pessoas que estão à vossa volta. A maior parte das vezes, mais vale a pena desacelerar um pouco e atravessarem a próxima passadeira juntamente com a Dona Zebertina, o que poupa algum tempo precioso aos condutores mais nervosos.
3) NÃO devem mergulhar para o alcatrão. Este hábito, muitas vezes praticado por crias com mochilas às costas, chapéus virados ao contrário e/ou penteados ridículos, pode resultar numa obra de arte abstracta bastante comum na Rússia, muitas vezes chamada de "Vermelho no Preto".
4) Regra final: se um carro abdicar da sua velocidade para travar progressivamente (e aproveito uma vez mais para destacar o "progressivamente"), habilita-se instantaneamente a um agradecimento em forma de aceno. O mesmo aplica-se para os idiotas que pensam que a passadeira é uma autobahn, mas com um dedo do meio em vez duma palma amigável.
5) Condutores: nunca, mas nunca, mantenham uma velocidade constante em cidade. Sendo que grande parte dos portugueses habilitados a conduzir atravessa uma avenida num tempo médio de dois segundos e meio, não faz mal nenhum travar de forma preventiva antes de uma passadeira. A sério, não faz mesmo mal nenhum.
6) O travão existe para salvar os imbecis já referidos acima de se transformarem num quadro ao ar livre, mas não se inibam de lhes dar uma boa lição. Não usem a buzina; abram antes o vidro para lhes dizerem, sem tirar os olhos da estrada: "Ufa, afinal era o pedal certo." Nunca mais vão pôr um pé na estrada sem olhar para os dois lados.
Pronto, era isto que vos tinha para dizer. Sem tirar nem pôr. Agora, quando saírem à rua de manhã, já saberão o que fazer para não serem transformados numa panqueca.
Perdão, existe ainda uma regra especial:
7) Se fizerem parte do grupo de idiotas que acelera na passadeira, espero que sejam atropelados por uma manada de elefantes enfurecidos.
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