A segunda ronda (raios, há mais) da minha dissertação sobre a arte de não apreciar séries televisivas prende-se com a importância de um outro ramo da indústria - aquele relacionado com os grandes do grande ecrã. E venho falar de um tema semelhante para melhor poderem compreender a minha opinião na área.
Há relativamente pouco tempo, um conhecido não conseguiu conter a oportunidade de me fazer ver a maior parte de uma película chamada Pacific Rim, a qual penso já ser do conhecimento dos leitores. Se não for, basta uma pesquisa rápida no Google para saber instantaneamente que se trata de um filme realizado por Guillermo del Toro, que desenvolve uma narrativa tão simples como o título desta publicação: são quase duas horas de robôs gigantes a trocar uns murros amigáveis com extraterrestres igualmente gigantes. A história pode parecer primitiva e já incrivelmente batida, mas o que é certo é que conseguiu captar a minha atenção só como os melhores filmes o conseguem. Chego ao ponto de dizer que é talvez o filme mais apelativo que vi em todo o ano de 2013, um período de tempo que inclui favoritos como a segunda parte de The Hobbit.
Embora rebuscada e, aos olhos de uns, completamente herética, esta afirmação não podia estar mais perto da verdade. E a verdade é que nunca fui grande crânio em termos de cinema. Em todos os meus anos de existência como ser vivo consciente e capaz de articular um discurso bem estruturado (gu-gu-dá-dá não conta, o que exclui o Presidente da República), penso que nunca adquiri as capacidades que me habilitam a dizer "sim, este filme está porreiro". Bom, é óbvio que existem filmes particularmente maus que nos fazem pensar se os actores foram pagos em dinheiro ou em sanduíches de peru, e não é preciso ser um génio para o perceber.
Porém, do outro lado da balança, sobre um altar brilhante rodeado de uma horda infindável de admiradores fiéis, jazem as obras que são consideradas algo de outro mundo. Clássicos como Gone With The Wind ou Pulp Fiction impõem-se como o zénite da sétima arte, olhando do alto dos seus tronos e bradando a nós, mortais: "Olhem para nós! Estamos aqui desde mil novecentos e qualquer coisa e ainda somos melhor que o filme x ou o filme y!" E nós olhamos. Porque mesmo que não os apreciemos, existe sempre um factor decisivo na pressão exercida pela sociedade. Este adágio conseguiu estender-se a algumas obras mais recentes e igualmente merecedoras de um lugar no Olimpo, cujos criadores parecem cada vez mais desesperados por ficar na história. Na actualidade, com o mundo todo ligado pela internet, não demora muito até um filme que recebe algumas críticas favoráveis correr de boca em boca (ou de teclado em teclado) até aos nossos ouvidos, normalmente sob a forma de um entusiástico "Não acredito que ainda não viste o Nãoseiquantas! Dizem que o Fulano Tal faz um papel espectacular, e até tem uma classificação de nove vírgula dois no Site Bastante Visitado e Admirado Por Admiradores De Cinema. É um must-see!". Não, não é.
Um filme perfeito não é aquele que temos de ver porque o Zebertino o viu e achou piada, ou porque o crítico Tal de Massachusetts diz que está muito bem conseguido do ponto de vista artístico. Além disso, um filme bom não depende apenas do próprio conteúdo, forma e apresentação, mas também da situação em que o visualizamos ou das pessoas com quem o fazemos. Já disse aqui que não tenho o hábito de ver televisão sozinho, pelo que o pessoal que se está a rir na cadeira de cinema ou sofá ao lado é tão importante para mim como o que está a passar no ecrã.
Pronto, tudo bem, acabam sempre por existir filmes especialmente bem feitos, com planos bem enquadrados, actores e actrizes no seu melhor e uma história cativante do início ao fim. Normalmente, no meio das obras mais bem cinzeladas, existem algumas com pormenores que as tornam realmente únicas. Na minha opinião, o problema é que a maior parte das pessoas não nota nisso. E não o queiram fazer.
Dos meus conhecidos, tenho talvez três ou quatro pessoas que sabem realmente do que estão a falar quando conversam sobre cinema: uma delas é uma colega minha que já tem no seu portefólio umas boas centenas (senão milhares) de filmes, e quem eu considero alguém com voto sólido na matéria. Outra é uma personagem misteriosa à qual darei apenas o nome de O Tipo - um veterano do assunto, com veia para realizador e uma noção perfeita do que é um plano americano ou momento deus ex machina. São pessoas que eu admiro pelo conhecimento que têm, mas o próprio Tipo admite: já lhe é difícil ver um filme sem pensar nos planos envolvidos e na posição das câmaras, ou o trabalho que aquilo deu ao realizador. É uma capacidade única, mas desnecessária para o comum entusiasta de cinema.
E é isto: o facto de um filme ser bom ou não é algo que deve depender sempre da opinião de cada um. Para termos uma experiência tão "nossa" quanto possível, o melhor mesmo é esquecer tudo o que dizem ali ou acolá sobre aquilo que estamos a ver. E é claro que algum conhecimento também será importante, mas não nos esforcemos para saber tudo o que a sétima arte nos tem para oferecer. A menos que queiram, um dia, fazer parte dela.
E pipocas. Não se esqueçam das pipocas.
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