sábado, 18 de janeiro de 2014

A viagem ao centro do ensino (não é de Júlio Verne)

Ah, a educação. Há muito tempo que esta ocupa uma enorme fatia da nossa juventude. Sim, falo de nós, sortudos habitantes de países com um acesso à rede internacional suficientemente bom para carregar páginas preenchidas com textos pouco lógicos de um gajo que fala mal de cenas. Embora o simples acto de passar conhecimentos de geração em geração seja uma habilidade que nem sequer é limitada à espécie humana, o percurso estudantil actual é o resultado de séculos de constantes inovações e reformas pontuais, que culminaram em mais de uma década de educação obrigatória numa fatia considerável do planeta.
Felizmente para vós, hoje não pretendo falar do desenvolvimento do marco de civilização (em parte) que é o sistema educacional. Não, não. Hoje dei por mim a voltar atrás no tempo e a rever algumas das memórias mais peculiares do meu próprio percurso pelo ensino, talvez um efeito secundário deste período a que gostam de chamar a época de exames. Desta viagem mental, retirei algumas ideias e estereótipos engraçados nos quais provavelmente o leitor (sim, tu!) se irá rever, e que estarei a relembrar nas linhas seguintes. Se quiserem sair, ainda vão a tempo.
Para tornar isto mais cronológico, vamos voltar atrás e viajar ao início. O jardim de infância não conta, já que o objectivo de tais instituições é levar à loucura um grupo de educadoras que, por mais aplicadas que sejam, não poderão nunca vencer o terror que é um grupo muito mais numeroso de crianças sedentas de leite com chocolate.
Na escola primária, porém, a mentalidade dos alunos abre-se a outros horizontes para além da despensa onde guardam os pacotes de leite com chocolate. Já há uma tendência crescente para questionar a razão das coisas, pelo que não demora muito até os putos (crianças, perdão) coçarem o queixo e perguntarem-se a si próprios "Sim, isto é mesmo estúpido, mas será que é isso que me vai impedir de o fazer?" A resposta é não, naturalmente, e faz nascer algumas das situações mais hilariantes (e nostálgicas) da nossa infância. Por exemplo, o rapaz com o Beyblade mais fixe era automaticamente o tipo mais fixe da escola, pelo menos até um puto substancialmente menos fixe o vencer num confronto que envolvia dois piões de plástico a chocarem e a despedaçarem-se a uma velocidade que, na altura, parecia impossível. Esta apetência para fazer coisas que agora consideramos imaturas estendia-se ao interior da sala de aula, onde qualquer desculpa era boa para atirarmos uma borracha ao colega do lado ou, pontualmente, à professora. Um dos eventos mais espectaculares (mas também mais efémeros) das aulas da primária era talvez o momento em que o giz - agora deve ser uma caneta - aterrava pela primeira vez sobre o titânico quadro de ardósia, desenhando lentamente as letras do sumário. O conteúdo do mítico sumário não interessava - a concentração dos alunos estava, por outro lado, em passar o texto para o caderno tão rápido quanto possível. Eu fiz parte desse grupo de corredores de sumários e, passados mais de dez anos, posso dizer que a minha letra é capaz de ter sofrido com o hábito.
Quanto aos testes, que na altura não tinham o mesmo peso que viriam a ter no ciclo seguinte, já seguiam o famoso modelo de "Aquele tipo acabou mesmo cedo, deve ser alto boss". Não por muito tempo...
Com a passagem para o quinto ano, começa realmente a existir uma pressão para estudar. Há muitas mais disciplinas, sendo que o trabalho necessário para as ultrapassar com distinção também é mais elevado. Não foi isso que, na altura, impediu muita gente de esquecer as maravilhas da primária e do mundo do leite com chocolate e dedicar-se a assuntos que lhes pareciam muito mais sérios - épicas batalhas de terra ou lutas infernais contra ninhos de abelhas, por exemplo. Antes inconscientes, estes actos começaram a ganhar um estatuto de bravura perante todos os outros alunos (e de estupidez perante as funcionárias), que depressa ganhavam motivos para admirar o miúdo que tinha enfrentado um enxame furioso de artrópodes apenas armado com os punhos.
A idade e os puxões de orelhas (há muita gente que não os apanhou em dose suficiente na infância) acaba por transformar os alunos em pessoas muito diferentes quando saltam para o terceiro ciclo, o período onde muita gente já começa a levar o estudo muito mais a sério. As brincadeiras nunca chegam a morrer, mas as prioridades transferem-se para coisas que na altura pensamos ser o pináculo da importância. Ainda se associa a mesma ideia de sempre aos testes, um paradigma que está prestes a mudar.
O ensino secundário. A rampa final para a entrada no mundo profissional ou na universidade. Embora o impacto inicial não seja o suficiente para pôr muitos alunos no ritmo, a passagem do tempo fá-los perceber que têm de estudar para sobreviver. Não é isto, porém, que impede a criança dentro de cada um de nós de se expressar, agora sob a forma de piadas inoportunas (ou, quando extremamente oportunas, capazes de pôr até professores a rir) e brincadeiras que começam lentamente a tornar-se obsoletas.
Felizmente, há sempre sobreviventes do holocausto emocional que é o momento "Raios, agora preciso de estudar" e que tornam os três últimos passos na escola substancialmente mais memoráveis. Sem me querer gabar, acho que posso dizer que fui sortudo o suficiente para conviver com turmas capazes de tornar qualquer aula de uma hora meia num entretenimento.
Com o secundário, mudou também a eterna lei dos testes. Agora, o primeiro a acabar estava mesmo lixado (excluindo os testes de Inglês, mas isso é diferente).
Gostaria de passar ao mundo da universidade, mas temo que não haja muito a dizer depois de um ano e meio de experiência. Eis os únicos factos e estereótipos que confirmo:
1) Paranóia, confusão e sono generalizado;
2) Pânico fácil;
3) Capacidade incrível de descrever como é preciso estudar tanto para certa coisa, em vez de realmente se dedicar a estudar essa mesma coisa.

Por falar dos pacotes de leite com chocolate, será que isso ainda existe?

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