Felizmente para vós, hoje não pretendo falar do desenvolvimento do marco de civilização (em parte) que é o sistema educacional. Não, não. Hoje dei por mim a voltar atrás no tempo e a rever algumas das memórias mais peculiares do meu próprio percurso pelo ensino, talvez um efeito secundário deste período a que gostam de chamar a época de exames. Desta viagem mental, retirei algumas ideias e estereótipos engraçados nos quais provavelmente o leitor (sim, tu!) se irá rever, e que estarei a relembrar nas linhas seguintes. Se quiserem sair, ainda vão a tempo.
Para tornar isto mais cronológico, vamos voltar atrás e viajar ao início. O jardim de infância não conta, já que o objectivo de tais instituições é levar à loucura um grupo de educadoras que, por mais aplicadas que sejam, não poderão nunca vencer o terror que é um grupo muito mais numeroso de crianças sedentas de leite com chocolate.
Na escola primária, porém, a mentalidade dos alunos abre-se a outros horizontes para além da despensa onde guardam os pacotes de leite com chocolate. Já há uma tendência crescente para questionar a razão das coisas, pelo que não demora muito até os putos (crianças, perdão) coçarem o queixo e perguntarem-se a si próprios "Sim, isto é mesmo estúpido, mas será que é isso que me vai impedir de o fazer?" A resposta é não, naturalmente, e faz nascer algumas das situações mais hilariantes (e nostálgicas) da nossa infância. Por exemplo, o rapaz com o Beyblade mais fixe era automaticamente o tipo mais fixe da escola, pelo menos até um puto substancialmente menos fixe o vencer num confronto que envolvia dois piões de plástico a chocarem e a despedaçarem-se a uma velocidade que, na altura, parecia impossível. Esta apetência para fazer coisas que agora consideramos imaturas estendia-se ao interior da sala de aula, onde qualquer desculpa era boa para atirarmos uma borracha ao colega do lado ou, pontualmente, à professora. Um dos eventos mais espectaculares (mas também mais efémeros) das aulas da primária era talvez o momento em que o giz - agora deve ser uma caneta - aterrava pela primeira vez sobre o titânico quadro de ardósia, desenhando lentamente as letras do sumário. O conteúdo do mítico sumário não interessava - a concentração dos alunos estava, por outro lado, em passar o texto para o caderno tão rápido quanto possível. Eu fiz parte desse grupo de corredores de sumários e, passados mais de dez anos, posso dizer que a minha letra é capaz de ter sofrido com o hábito.
Quanto aos testes, que na altura não tinham o mesmo peso que viriam a ter no ciclo seguinte, já seguiam o famoso modelo de "Aquele tipo acabou mesmo cedo, deve ser alto boss". Não por muito tempo...
Com a passagem para o quinto ano, começa realmente a existir uma pressão para estudar. Há muitas mais disciplinas, sendo que o trabalho necessário para as ultrapassar com distinção também é mais elevado. Não foi isso que, na altura, impediu muita gente de esquecer as maravilhas da primária e do mundo do leite com chocolate e dedicar-se a assuntos que lhes pareciam muito mais sérios - épicas batalhas de terra ou lutas infernais contra ninhos de abelhas, por exemplo. Antes inconscientes, estes actos começaram a ganhar um estatuto de bravura perante todos os outros alunos (e de estupidez perante as funcionárias), que depressa ganhavam motivos para admirar o miúdo que tinha enfrentado um enxame furioso de artrópodes apenas armado com os punhos.
A idade e os puxões de orelhas (há muita gente que não os apanhou em dose suficiente na infância) acaba por transformar os alunos em pessoas muito diferentes quando saltam para o terceiro ciclo, o período onde muita gente já começa a levar o estudo muito mais a sério. As brincadeiras nunca chegam a morrer, mas as prioridades transferem-se para coisas que na altura pensamos ser o pináculo da importância. Ainda se associa a mesma ideia de sempre aos testes, um paradigma que está prestes a mudar.
O ensino secundário. A rampa final para a entrada no mundo profissional ou na universidade. Embora o impacto inicial não seja o suficiente para pôr muitos alunos no ritmo, a passagem do tempo fá-los perceber que têm de estudar para sobreviver. Não é isto, porém, que impede a criança dentro de cada um de nós de se expressar, agora sob a forma de piadas inoportunas (ou, quando extremamente oportunas, capazes de pôr até professores a rir) e brincadeiras que começam lentamente a tornar-se obsoletas.
Felizmente, há sempre sobreviventes do holocausto emocional que é o momento "Raios, agora preciso de estudar" e que tornam os três últimos passos na escola substancialmente mais memoráveis. Sem me querer gabar, acho que posso dizer que fui sortudo o suficiente para conviver com turmas capazes de tornar qualquer aula de uma hora meia num entretenimento.
Com o secundário, mudou também a eterna lei dos testes. Agora, o primeiro a acabar estava mesmo lixado (excluindo os testes de Inglês, mas isso é diferente).
Gostaria de passar ao mundo da universidade, mas temo que não haja muito a dizer depois de um ano e meio de experiência. Eis os únicos factos e estereótipos que confirmo:
1) Paranóia, confusão e sono generalizado;
1) Paranóia, confusão e sono generalizado;
2) Pânico fácil;
3) Capacidade incrível de descrever como é preciso estudar tanto para certa coisa, em vez de realmente se dedicar a estudar essa mesma coisa.
3) Capacidade incrível de descrever como é preciso estudar tanto para certa coisa, em vez de realmente se dedicar a estudar essa mesma coisa.
Por falar dos pacotes de leite com chocolate, será que isso ainda existe?