Infelizmente, o ódio a seja o que for é uma das emoções primitivas que habita o nosso igualmente primitivo cérebro de primata. Assim como podemos estar a rir ou a chorar num segundo, no seguinte somos capazes de estar a convocar todos os demónios do inferno numa fúria pouco digna de seres "inteligentes". Esta progressão para a raiva e os olhos avermelhados provém de uma série de mecanismos que nos são muitas vezes completamente alheios, fazendo-nos entrar em combustão sem que o queiramos mesmo. Será? É óbvio que a espécie humana possui uma característica que a torna diferente (em princípio) do resto da fauna que habita o nosso planeta: a capacidade de pensar e agir de maneira distinta daquela proposta pelas profundezas do seu sistema nervoso. E isso devia dar-nos uma oportunidade de ponderarmos a nossa breve insanidade, não? Não.
O grande problema aqui não é o facto de a sociedade não conseguir controlar o ódio que mais tarde ou mais cedo se gera a partir de situações diversas: é o facto de se verificar, cada vez mais, que as pessoas gostam desse ódio. Gostam de guardar ressentimentos, de manter rivalidades, de tecer teias de conspiração misteriosas e até mesmo libertar toda a sua fúria na cara dos seus supostos inimigos. Parece uma moda infeliz e doentia, como a moda de os Neandertal se canibalizarem uns aos outros. Felizmente, os Neandertal desapareceram há milhares de anos, e nós continuamos aqui a espalhar a palavra do... do ódio.
"Espera aí!" - grita o leitor, indignado - "A nossa espécie anda a espalhar ódio desde o momento em que ganhou cabeça para o fazer. Já te puseste a olhar para a quantidade de guerras que se travaram no passado? Pelo menos hoje não há tantos confrontos do género, minha besta!" Isto não está completamente errado, mas também não possui um único vestígio de verdade. As batalhas de um passado longínquo eram sanguinárias e terríveis, sim, mas é por isso que pertencem ao passado: a um tempo no qual, supostamente, seríamos menos civilizados que hoje. Felizmente, a actualidade conhece um mundo em que conseguimos manter muito melhor a nossa compostura e evitar o lançamento em massa de ogivas nucleares capazes de destruir várias Terras. Espera, ogivas nucleares?! Para que diabo precisamos de ogivas nucleares em tempo de paz? Ah, pois... é que nós nunca entrámos em paz.
O que quer que façamos, o que quer que desejemos, haverá sempre a tendência para a segregação da nossa raça humana em grupos mais ou menos uniformes. Podemos tentar inventar desculpas e justificar tal mecanismo com coisas fúteis do género do petróleo e outras riquezas, mas a verdade é que é tudo uma questão de ódio. Nem os nossos (supostos) grandes líderes escapam à lógica do "Nós é que somos bons, eles são feios, e nós somos melhores do que eles" porque isso faz parte da nossa natureza. Mas não pensem sequer que isto é uma desculpa: como já referi, a habilidade mais importante é ser capaz de controlar o ódio que eventualmente surgirá. O mundo não tem de se dividir em grupos religiosos que desejam a morte sangrenta uns dos outros, nem em organizações secretas que conspiram o futuro de algo que, no fundo, não interessa a ninguém. Já temos os clubismos com recurso à porrada e as discussões por causa de coisas tão inúteis quanto batatas fritas: não queiram descer mais fundo.
Gozem à vontade com a minha ideia de melhorar o mundo através da indiferença ao ódio, mas a verdade é que não perco nada com isso. A repressão da raiva que nos invade muitas vezes começa pelo desenvolvimento de uma base moral sólida, que nos impeça de partir para acções erradas e com consequências terríveis, e também uma grande - grande - paciência. Tomar decisões vitais recorrendo à pior emoção que alguma vez assolou o nosso hipocampo é meio caminho andado para a auto-destruição, o que se pode também aplicar ao nosso planeta. Não queiram fazer isso.
Como solução temporária, tenho aqui uma música que deve acalmar os vossos ânimos até à próxima idade do gelo. Se tal não acontecer, o melhor é considerarem uma carreira de eremita.
Que o Baba Yetu vos acompanhe.
(Obra original de Christopher Tin)
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